Maior desafio à saúde no século XXI, mudanças climáticas exigem hospitais mais sustentáveis

Na esteira do aquecimento global, as mudanças climáticas do planeta já estão criando grandes desafios à saúde mundial para as próximas décadas. E na Amazônia Brasileira, em específico, esses panoramas exigem ações profundas para já. Estudiosos alertam: é preciso tomar drásticas medidas de gestão, para que nos preparemos a duros cenários, e isso inclui mudanças de processos e práticas em estabelecimentos de saúde, como hospitais, que também devem estar presentes nas políticas públicas regionais.

A meta é encontrar soluções eficazes para problemas, como o manejo de resíduos, o consumo de água e energia e a emissão de gases relacionados ao agravamento do efeito estufa. Sem isso, populações mais vulneráveis sofrerão – e demandarão cada vez mais os serviços de saúde, ao passo que hospitais estarão menos preparados para cumprirem seu papel de promover o bem-estar de comunidades.

“Para a saúde do norte, as mudanças climáticas trazem maiores riscos para crianças e idosos. Eles sofrerão mais com doenças relacionadas ao aumento da temperatura média na região, que deve ser igual ou maior que 30  graus Celsius, até 2099. Esse fato, associado a quadros precários de saneamento básico, poderá fazer crescer a incidência de diarreias infantis em 34% nos municípios da região. Além disso, 64% das populações infantis da Amazônia sofrerão um aumento de até 50% nos casos de diarreias até 2099”, alerta Brenda Brito, pesquisadora associada à ONG Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), uma das 40 instituições que hoje integram o Observatório do Clima. 

“Somos a última geração que ainda pode fazer algo para mudar isso. Todos os compromissos até aqui assumidos nas conferências mundiais do clima ainda nãos nos deixam margem de segurança. O aquecimento global está provocando várias mudanças, e eventos climáticos extremos serão cada vez mais intensos e frequentes”, ressaltou a pesquisadora, nesta terça-feira (14/03), durante a primeira rodada de palestras do I Seminário Amazônico dos Hospitais Saudáveis, realizado em Belém (PA).

O encontro reúne, até esta quarta (15/03), cerca de 150 participantes ligados ao setor de saúde, manejo ambiental e gestão hospitalar. Os debates são promovidos pela rede nacional do projeto Hospitais Saudáveis (PHS) e pelo Hospital Público Estadual Galileu, que é gerido pela entidade filantrópica Pró-Saúde Associação Beneficente de Assistência Social e Hospitalar, que hoje é responsável pela administração de seis hospitais públicos no Pará, em regime de contrato com a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa).

O tema principal do encontro é justamente os desafios a serem enfrentados pelo setor de saúde na Amazônia frente às mudanças climáticas. “Mesmo que conseguíssemos fazer tudo o que for possível, hoje, para deter o fenômeno do aquecimento global, ainda pode levar cem anos para reverter esta situação, afirmam 97% dos cientistas de todo o mundo. Precisamos nos preparar”, adverte a pesquisadora do Imazon. “O Brasil está entre os dez maiores emissores de gases ligados ao efeito estufa do globo. A redução tem recuado, por conta da diminuição do desmatamento nos últimos anos, mas já se nota que outros setores relevantes para o fenômeno começam a crescer. Precisamos ter planos e ações para conter isso, incluindo os hospitais e outros estabelecimentos de saúde”.

Brenda Brito lembra que o Pará é, atualmente, um dos maiores emissores de gases ligados ao efeito estufa do País. Vem liderando esse ranking há anos, com exceção de um recuo em 2015, mas tende a continuar esse cenário. “Cada paraense produz, em média, cerca de 19 toneladas de CO2. É um padrão muito alto, comparado ao de países desenvolvidos, como os EUA e Canadá, apesar de todos os nossos problemas. Isso aponta que há algo muito errado com nosso modelo de desenvolvimento”.

Fronteiras – “A mudança climática já foi definida como a maior ameaça à saúde do século XXI. E, hoje, o combate às mudanças climáticas pode ser também a maior oportunidade para a saúde global nesse milênio. Os hospitais brasileiros, por exemplo, consomem 8% da energia elétrica do País. Podemos e devemos buscar alternativas de energia limpa e renovável, como a fotovoltaica, e mudar processos para reduzir a pegada de carbono. As soluções para todas as crises que ameaçam a área de saúde estão no tripé da sustentabilidade. E o setor da saúde precisa dar o bom exemplo, estar ao lado do progresso”, defende Vital Ribeiro, presidente do conselho do Projeto Hospitais Saudáveis (PHS), que também falou à plateia que participou do encontro desta terça em Belém.

Associação sem fins lucrativos, o Projeto Hospitais Saudáveis há dez anos se dedica a promover avanços do setor de saúde no que se refere à proteção ao meio ambiente e à saúde de colaboradores, pacientes e de comunidades ligadas a hospitais brasileiros.

Entre suas principais ações, estão a realização de seminários Hospitais Sustentáveis, o fomento do programa “Desafio 2020: a saúde pelo clima” – que incentiva a redução da emissão de gases ligados ao efeito estufa -, e a colaboração com a Rede Global Hospitais Verdes, que congrega hoje 23 mil organizações e sistemas ligados à saúde ao redor do globo.

Atualmente, o Projeto Hospitais Saudáveis (PHS) reúne, no Brasil, 157 membros de onze sistemas de saúde e instituições, além de 300 hospitais e 900 unidades não hospitalares. Os objetivos da agenda global dos hospitais verdes e saudáveis incluem diretrizes e ações de incentivo à liderança para a sustentabilidade, o manejo de substâncias químicas e resíduos ligados aos ambientes hospitalares; o uso eficiente e mais racional da energia e da água e, também, os cuidados com os impactos dos alimentos, do transporte, dos produtos farmacêuticos e das compras nessas instalações – além do incentivo à construção de edifícios hospitalares mais verdes.

“Podemos atender mais em saúde, atentando para pontos importantes com liderança, resiliência, que é a capacidade de se preparar para esses impactos das mudanças extremas do clima, e a mitigação de impactos”, aposta Ribeiro.

Um dos exemplos desse esforço são cartilhas e oficinas de capacitação oferecidas pelo Projeto Hospitais Saudáveis, para que estabelecimentos hospitalares aperfeiçoem suas necessidades de elaboração de inventários sobre gases de efeito estufa (GEE) e planilhas do Programa Brasileiro do GHG Protocol. Essas ferramentas são fundamentais para que as gestões de hospitais possam avaliar seus impactos e estabelecer metas para a redução desses impactos.

Vale lembrar: o Brasil assumiu o compromisso de reduzir em 37% as emissões de gases ligados ao efeito estufa até 2025. E em 43% até 2030. Tudo tem como ponto de partida o ano de 1992, quando se firmou na Eco 92, no Rio de Janeiro, a Convenção Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas.

Avanços – O passo mais recente do cerco aos gases que agravam o efeito estufa é o Acordo de Paris, de 2015. A meta, que agora envolve compromissos de todos os países da comunidade internacional, é manter o controle para que o avanço da temperatura global não alcance os dois graus a mais. Até 2012, estima-se que ela já tenha subido 0,85 graus Celsius.

“Podemos atender melhor nossos pacientes, com menos custos e com redução de impactos. Rumo à sustentabilidade, queremos inserir cada vez mais nossas comunidades nesse processo, para que possamos fazer uma sociedade mais saudável. Se planejarmos o futuro, o futuro será isso: menos gente doente e cada vez mais envolvida com o meio ambiente”, disse Paulo Czrnhak, administrador hospitalar e diretor Operacional da Pró-Saúde no Pará. A entidade filantrópica Pró-Saúde tem tradição quando o assunto é a busca de gestões hospitalares sustentáveis. Ela foi responsável pela administração do primeiro hospital público da América Latina a publicar relatórios de sustentabilidade com o selo da Global Reporting Initiative (GRI), conquista lembrada pelo diretor de Desenvolvimento da entidade, Danilo Oliveira, que participou do evento.

Respeitada como um núcleo oficial de colaboração do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), a GRI foi criada com o objetivo de elevar e qualificar as práticas de relatórios de sustentabilidade de empresas a um nível equivalente ao dos relatórios financeiros.

Hoje, três hospitais públicos paraenses já adotam planos de gestão que incluíram os parâmetros GRI para se estabelecerem como hospitais sustentáveis: o Hospital Público Estadual Galileu (HPEG) e Hospital Oncológico Infantil Octávio Lobo (HOIOL), ambos em Belém; e o Hospital Regional do Baixo Amazonas (HRBA), em Santarém. 

“Este encontro em Belém é de grande relevância para a discussão sobre hospitais sustentáveis no Estado, no momento em que o Pará está lançando, nos próximos dias, o programa Pará Sustentável, que congrega o Pará Social, o Pará 2030 e o Pará Ambiental”, avalia o secretário Vitor Mateus, titular da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), um dos convidados da programação que abriu esta terça o I Seminário Amazônico dos Hospitais Saudáveis.

“A Pró-Saúde é uma importante parceira no gerenciamento de vários hospitais públicos no Pará. E esses hospitais não podem assumir perspectivas de apenas atender as pessoas. Eles devem ter boas práticas e assumir maiores responsabilidades, como essa que, agora, inclui a parte ambiental”, ponderou Mateus. “Quando se tem uma entidade que se engaja dentro dos princípios norteadores, da filosofia e da maneira de pensar do governo do Estado, que também se preocupa e trabalha pela questão da sustentabilidade, isso passa a ser um elemento fundamental para levar a discussão à área da saúde. É o que queremos”.

Trocas – Faturista no Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE), de Ananindeua, Maria Marly Dias Duarte descobriu, no debate da sustentabilidade dos hospitais, um tema muitíssimo atraente. “Ainda não tinha conhecimento total do assunto. Os métodos são bem interessantes e os hospitais realmente precisam desenvolver essas práticas. Muitos ainda não fazem corretamente o descarte de resíduos. Todas essas questões são interessantes tanto para a preservação da natureza quanto para a saúde do ser humano”, ponderou.

“É disso mesmo o que a gente precisa. E não só aqui, mas também disseminar em Manaus (AM). Uma das coisas que a gente notou como objetivo são as questões de adesão ao ‘2020’ [programa de redução de emissão de gases relacionados ao efeito estufa] e quanto a nossa responsabilidade com o meio ambiente. E disseminar cada vez mais a importância da responsabilidade social de cada um sobre a geração de resíduos, como foi colocada por vários participantes”, refletiu Israel Lemos, responsável técnico da gerência de resíduos do Hospital Adventista de Manaus.

“Aderimos à campanha Hospitais Saudáveis no início do ano passado. Isso nos motivou a participar do evento. Quando a gente vê que a gestão [da sustentabilidade dos hospitais] é maior, abraça a causa dos resíduos”, garante Lemos.

Para a enfermeira Patrícia Vidal, que atua no posto de atenção básica do município de Capanema, no Nordeste do Pará, a participação no encontro em Belém rendeu trocas de informações muito importantes. “A gente sabe que a saúde produz resíduos, mas a gente pouco ouve falar sobre como acontece esse descarte. As informações foram muito úteis, me fizeram pensar a trabalhar mais nessa área, mas me deixaram com algumas interrogações a respeito de algumas outras questões, mas respondeu a outras que até eu mesmo, como profissional, nunca tinha parado para pensar”.

O diretor de Desenvolvimento da Pró-Saúde, Danilo Oliveira, demonstrou-se muito feliz em ver a discussão sobre sustentabilidade sendo disseminada, recordando que a Pró-Saúde começou esse processo, lá atrás, em 2009. “Aqui, há uma responsabilidade muito grande, por estar na Amazônia, sendo necessário pensar sustentabilidade nos hospitais. E, hoje, já está sendo feito”, finaliza.